quarta-feira, 30 de junho de 2010

HIV




- Esses gatos sempre a mexerem nas minhas plantas! Nunca vi tantos gatos assim em Benguela! Mas prontos, voltando ao assunto...
Estavamos num almoco. Todos reunidos, uma especie de reencontro. Muitas brincadeiras, alguns flirts... eramos jovens e queriamos curtir. Encontrei muitas caras novas, a comida daquele dia ainda deixa saudade. Era nitida a vontade das pessoas em se divertirem, conversarem, dancarem, comerem, cantarem! Foram muitas as anedotas!!!
A meio dessa celebracao, quando o segundo grupo de pessoas se preparava para se apossar da unica mesa disponivel na festa, entre um "podes te sentar aqui"... " ja estou a acabar ya canuka!" Ele corta o dedo nao sei como. Parece que o copo estava rachado. Estava sentado mesmo a minha frente, mais para a direita, acho eu. Entretanto, senti que tinha acontecido mais do que um simples cortar de dedo. Um segundo depois, quando pus meus olhos nele, vi o horror estampado! Tinha tambem vergonha e humilhacao... sincero desespero e, por fim, um altruismo meio destrambelhado.
- "Afasta-te!" Gritou ele.
Levei um susto dos diabos, ate humilhada me senti. Nossa relacao nunca havia se desenrolado. Desde sempre houve um carinho muito grande mas era extremamente complicado nos relacionarmos.
Perguntei-lhe quando havia descoberto. Olhou-me nos olhos com grande surpresa, pude ver ate mesmo remorso e arrependimento, um pedido de desculpas por tanta omissao e menosprezo por mim ao longo dos anos. Foi com uma voz rouca que respondeu:
- Soube ha 6 meses... e quero viver.
Alguem, nao me lembro quem, toca a correr, abraca-lhe e poe-se a chorar. Depois, mais algumas pessoas fizeram o mesmo. Nao pude nem consegui consola-lo, sofri minha dor em silencio, no geral e no comum.
Pouco antes de sua partida, enviei-lhe uma carta. Tivemos uma de nossas melhores conversas algum tempo depois, mas continuamos cronicos estranhos um para o outro. Nunca hei de compreender nossa relacao.
- Avo, desculpa interromper, mas precisas de alguma coisa? Vou ao supermercado, amanha vou dar um jantar la em casa, sao os anos da Claudia e...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Bussola



A queda foi pesada, o desacreditar era muito real e aquela dor era justificada, justa.
Ela nao sabia por onde comecar, nem sequer se podia recomecar. Mas foi durante esse cancer que ela nasceu, finalmente ela nasceu! Anos foram precisos para estar pronta para emergir, sua casca estava se rompendo e de seu corpo ela nascia.
Ofegante, teve seu primeiro orgasmo e ele foi seu, somente seu, dela. O medo se dissipava cada vez mais e o desprezo alheio, a arrogancia e ate a ojeriza, eram subtraidos, ja nao machucavam porque agora ela sabia, compreendia quase que perfeitamente essa mistica dinamica da vida, seus niveis e processos.
Estava a comecar a ser mulher, ja a tinham penetrado algumas vezes. Nao em sua vagina mas em sua psique e sua alma. Ja a haviam engravidado tambem. Seu filho estava a crescer... Quer aprender a viver.
Seu corpo reclama pelo que ja teve uma vez. Ele quer suar e vibrar novamente e seu cerebro procura alguma languidez.
Mas ela nao preve, prefere o casual, o reencontro natural. Espera intensificar algo em si mesma, ser sua unica estrutura, seu definitivo lar.

" Que sejas tu a minha bussola. Que aconteca segundo as tuas recomendacoes. Quando sentir, avancarei, me entregarei louca e despudoradamente para logo em seguida retornar curada, sa e jubilosa, a mim mesma."

A cegueira de Saramago



Foi durante uma aula de ingles que despretensiosamente, meu professor se disse incredulo quanto ao aquecimento global. Minha curiosidade de crianca disparou um "Porque?!" impiedoso. Nao obtive resposta, nao era o objectivo da aula... nao voltei a insistir.
A remota possibilidade dessa opiniao ter uma base bem fundamentada deu-me animo para pesquisar sobre tal disparatada posicao.
Eventualmente, visitando um blog de economia li a seguinte frase: duvidar sempre!
Lembro-me de ter achado aquilo tudo muito engracado, a preguica riu a largas gargalhadas! Como assim duvidar sempre? Sermos sempre desconfiados entao?! Nao ter paz?! Muito cansativo.
Porem, no momento presente, com todo esse dinanismo da verdade, o cepticismo nunca antes fez tanto sentido. Nao existe o absoluto, penso que exista o sensato, o de boa-fe! O solidario. Adicionalmente, a ignorancia revelou-se, novamente, uma doenca muito perigosa, talvez a tal cegueira de Saramago.
A partir de agora, duvidarei cada vez mais, pois nada pode ser hegemonico!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Incessantemente!



Sinto que tudo se desmorona rapidamente. Momentos de jubilo esfumacam-se no cinzeiro de vidro que, delicadamente, enfeita o espaco.
Ele e assim, sempre o foi e sempre o sera. Nao porque quer, mas porque nasceu dessa maneira, com essa sua verdade... e tambem a sua defesa, seu contra-ataque! E tu, deixa-lhe ser o que quiser, so nao comprometas o que conquistaste em ti.
Entretanto, o desmoronar e ilusorio. Trata-se apenas de um sopro inesperado que ocasionou uma pequenita erosao. Motivo para o martirio nao ha, por isso trata de analisar a situacao com o auxilio da razao! Aguca a tua percepcao e permita que uma certa malicia se manifeste. Veras nitidamente que tal perfeicao jamais existiu, em nenhum dos lados.
Uma vez conscientizada, ja nao seras derrubada. Saberas como raciocinar, como pensar, como nao responder... perdoaras. Estalidos em um cristal podem ser caminhos abertos, novos ares, uma nova visao. Esse aprendizado depende de nossa disposicao, contudo as oportunidades de assimila-lo sucederao-se incessantemente!

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Abraco!



A solidao nos abate nos momentos mais inesperados e inusitados. Quando finalmente realizamos aquele "sonho tao sonhado" e inoportunamente, durante o trajecto um vazio nos preenche o peito e a excitacao se desvanece a perplexidade se apodera de minha mente.
Pessoalmente, essa emocao sempre foi muito assustadora. Lidar com ela e assunto "cumplicado"! Porem, o que significa estar sozinho? Literal e metaforicamente falando, uma pessoa pode se perceber relegada a solidao estando rodeada de gente. Entretanto, outras podem estar assumidamente so, porem, intimamente, saberem que estao muito bem acompanhadas por si mesmas! Ha ainda, os que sozinhos sao e simplesmente nao o sabem, seja no intimo ou na pratica.
Por conseguinte, como tudo na vida, nao existe regra geral para esta situacao tao corriqueira e natural. Nascemos sozinhos e sozinhos morreremos, a diferenca talvez esteja na forma como desfrutamos nossa vida solitaria. Uns sabem que durante a caminhada terao abracos reconfortantes, ombros amigos, o amparo do companheiro/a, a cumplicidade que tao humana e. Para outros, ignorar e a solucao. Preferem nao ter que lidar com o monstruoso vacuo que por vezes nos sufoca e desnorteia, escolhem se concentrar no final da trilha... Simplesmente me pergunto se este nao e senao um comeco, ou ainda, se realmente existe um sincero fim.