domingo, 21 de agosto de 2011

23:43




23:43, era uma sexta-feira abafada. A festa estava quente, as pessoas sentadas em grupos, observavam de esguelha as outras mesas à procura, à caça. Ela sabia disso, também ela assim o estava, agora que eram 23:43.

Aquele homem ali era algo destinado, ele não pertencia àquele lugar, ela sabia-o perfeitamente. Não deixaria essa oportunidade passar, era um sinal de suas mais íntimas crenças pessoais.

Sentiu sua presença. Pôs seus olhos sobre ele e sentiu um ímpeto em seu âmago, sua saliva tornou-se mais espessa, seus poros abriram-se um pouco mais...

Não era sentimento, era pura excitação, vontade de sexo. Seus cabelos claros e longos presos de forma feminina despertava seus sentidos, adorava essa pequena androginia característica nesses homens.

Lembrou-se de Eduardo, finalmente percebeu o seu ponto de vista e concordou, ele tinha a razão. Sentiu uma pequena revolta, por mais vontade que tivesse daquele homem jamais conseguiria realmente viver aquele momento sem ferir a lealdade que nutria por seu companheiro.

Lembrou-se que na altura em que o mesmo lhe sucedera, ela não aceitara o que agora desejava impiedosamente.

Com o olhar turvo pela lascívia, chegou-se a ele e permaneceu ao seu lado, pensativa e calada.

domingo, 8 de maio de 2011

Os orgasmos de Isabela




Há muito que Isabela desejava aquele homem. Já haviam se encontrado algumas vezes em casa de amigos e conhecidos em comum, haviam trocado algumas palavras, algumas ideias, mas nada conciso ou revelador, o mistério sempre permanecia.

Naquela manhã Isabela acordou com um forte desejo, queria aquele homem.
Trocaram algumas palavras, acendeu algumas velas e incenso, a luz foi tornada indirecta e tocaram-se.

Isabela principiou por mordiscar o lábio masculino, entrelaçou os dedos em sua nuca e sentou-se em seu colo. Sentiu a erecção masculina mas não deixou que o ego a dominasse.

Beijou-lhe com escrutínio, a procura de algo que só ela sabia o que era. O homem abraçou-lhe o corpo, abocanhou seu seio direito e sussurrou algo indizível.

Isabela já sentia seu sexo molhado, seu ponto de prazer estava ansioso por ser acariciado. Ele lambia seu pescoço, sua orelha, a palma de sua mão!

Isabela ainda ponderava se iria se entregar a aquele momento. Podia levantar-se e sair dali sem sequer olhar para trás, ignorar por completo aquelas sensações.

Ela pôs em sua boca o dedo indicador de seu macho e depois o introduziu em sua vagina, era ela quem controlava a profundidade e a força com que era tocada. Em seguida, Isabela permitiu que fosse realmente ele a penetrá-la.

O homem pôde ver a expressão de gozo na face de Isabela. Ela se contorceu de prazer, fechou os olhos e passou a língua nos lábios. Repentinamente pôs a mão no peito do homem pedindo-o que parasse. Ele obedeceu e ficou à espera que ela lhe desse alguma indicação. Isabela permaneceu com os olhos fechados mas mexeu os quadris no sentido inverso. Ela voltou a atingir o êxtase.

Ele sugou seu mamilo esquerdo, lambeu seu rosto e beijou-lhe a boca. Isabela mordeu-lhe ferozmente, gemeu mais alto e tornou seus movimentos mais rápidos e frenéticos.

Após mais um orgasmo, Isabela debruçou-se sobre ele por alguns segundos. Passados 15 minutos, já ela estava em frente ao semáforo, dentro de seu carro, a espera de que a luz verde permitisse que os carros pusessem-se em movimento.

Isabela tinha muito trabalho para fazer naquela manhã de terça-feira. Há dois minutos soube que sua paciente entrou prematuramente em trabalho de parto. Definitivamente seria um dia difícil.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Francisco, o filho




Adriana era agora uma mulher muito mais consciente de si, de suas necessidades. Aprendeu a ser-se suficiente, mas nem sempre fora assim.

Era uma pessoa regrada, nada dada a exageros ou extravagâncias. Mas apaixonou-se, e quando uma moça regrada se apaixona a mística da vida se liberta e permite que o destino flua.

Naquele encontro casual, com bocas se engolindo, mãos irriquietas, respirações ofegantes, suor, hálito, olhares entorpecidos pela libido, sussurros e orgasmos, fez-se a vida.

Cinco anos é algum tempo, com cinco anos uma criança já sabe ler, já sabe escrever, já sabe se questionar e interpelar outrem com suas inquietações, aos cinco anos nosso cérebro é genial e com cinco anos ninguém nos pode enganar.

Francisco contava cinco anos, há cinco anos que não tinha pai. Ele sabia que ele existia, mas este parecia estar muito ocupado e nunca pôde, desde seu nascimento, reservar uma parte de seu tempo para conhecê-lo. Francisco pusera essa questão a sua mãe algumas vezes e esta, naqueles momentos, contorcia o rosto com uma expressão de exasperação e medo, o que o deixava muito impressionado. À noite o menino ouvia sua mãe chorar sob a penumbra da janela e assim concluiu que falar de seu pai devia ser doloroso.

Nas férias de julho de 1995, Márcia o havia ido buscar à natação e quando chegou à casa, Francisco percebeu-a muito silenciosa. Era hora do almoço e o menino, mesmo tendo detectado o silêncio incomum, correu aos gritos para o banheiro para lavar as mãos. Márcia avisou-o de que a comida iria demorar mais algum tempo e ele pôs-se então a assistir alguma baboseira na televisão.

Entretanto, ouviu vozes vindas do quarto de sua mãe. Ela não deveria estar em casa a essa hora! Isso era estranho. Encaminhou-se curioso até lá e com uma grande ansiedade pôs a mão na maçaneta e adentrou o quarto. Viu um homem sentado na poltrona perto da janela e sua mãe na beira da cama, com uma expressão muita séria.
O tal estranho estava nervoso mas ao mesmo tempo parecia tentar se controlar a todo o custo. Tinha uma aparência muito singular. Era bonito, mais velho que sua mãe, cabelos grisalhos e dentes e olhos igualmente grandes. Francisco não teve medo daquele estranho, na verdade sentiu uma profunda alegria.

O menino respirou fundo e um segundo depois correu com todas as suas forças em direção ao homem. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e quando pulou e abraçou fortemente o pescoço de seu pai, Francisco disse que tinha certeza de que aquele momento chegaria.

Passaram a tarde toda conversando na varanda do apartamento. O menino mostrou o álbum de fotos que vinha organizando, assim ele não teria perdido os grandes momentos da sua vida. Francisco percebeu que seu pai ia chorar, seus olhos estavam avermelhados, carregados de lágrimas e seu peito parecia prender todo o ar. O menino disse que não fazia mal ele só ter aparecido naquele momento para conhecê-lo, o que importava é que ele estava ali.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Uma história do amor com final feliz




Era uma manhã de chuva, o céu acinzentado destoava do clima daquela cidade maravilhosa. Os pingos d´água molhavam a varanda da casa, os móveis de veraneio, as enormes janelas só de vidro.

Roberto estava pensativo naquela manhã chuvosa de julho, era domingo, era dia de descanso, dia de curar mais um pouco a sua osteoporose na alma. Estava embrulhado nos lençóis de seda cor de marfim, seu quarto cheirava a incenso indiano, comprado em sua última viagem.

Acordou com saudade, acordou e lembrou daquele beijo, aquele beijo, daquele beijo. Surpreendeu-se com aquele desejo, aquela saudade tão dolorosa que é sentir o sabor, o cheiro daquilo que sabemos já não mais poder ter.

Esta era a maior conquista de Paulina, e ela nunca o soube. Havia há muito ido da vida de Roberto, entretanto seu cheiro impregnara as narinas, a casa, o carro, as mãos, a boca, a mente e os lençóis deste homem.

Haviam passado muitas mulheres por aquela cama, mulheres mais sensuais, inteligentes, divertidas e fortes do que ela. Mas era Paulina quem Roberto amava, por mais difícil que fosse de se perceber este amor.

Era ela a mulher que Roberto procurava a meio da noite quando esticava o braço pela cama em busca de aconchego e proteção, era por causa dela que ele inconscientemente só se permitia dormir numa metade da cama. Foi para ela que ele comprou as violetas que ficam no centro da mesa da sala de estar.

Roberto sabia que Paulina não era a mulher mais bela do mundo, não era a mais perspicaz nem a mais elegante. Sabia que não era a mais ousada durante o sexo nem a mais madura emocionalmente mas ele a amava e para isso não encontrava explicação racional, só se conseguia lembrar do cheiro de seu perfume, do cheiro de seus cabelos quando acabados de lavar, do cheiro de seu creme de corpo e da sua pela macia, dos seus lábios naturalmente desidratados e da expressão de seu rosto durante o amor.

Neste instante lembrou-se que jamais conseguiria tê-la de volta, jamais conseguiria o seu perdão, sabia que Paulina era agora a mulher que ele jamais imaginou que ela pudesse se tornar, uma mulher amadurecida e lúcida que agora facilmente deslindaria seus defeitos e fraquezas, e isso ele não poderia suportar, por isso preferia viver de cheiros e lembranças do que de realidade e seus cruéis desafios diários.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A puta






Foi uma voz forte, com projecção, que conduziu Maria de Fátima, a puta que acompanhava aquele homem tão distinto, até a uma das melhores mesas daquele recinto.

Iriam passar a noite juntos, ele iria penetrá-la quantas vezes quisesse e da maneira que quisesse. Contudo, a puta havia estipulado o preço para isto, por isso ela não era de quem a quisesse, era somente de quem pudesse pagar o o seu valor.

Maria de Fátima era esbelta, talvez magra demais e sem muitos atrativos físicos que sugerissem que pudesse prender a atenção de um homem como ele, mas curiosamente e contra toda a probabilidade, ele havia se encantado com a dita puta.

A puta era tacanha, digo tacanha na tentativa de mostrar realmente a baixeza da tal mulher. Tinha um cabelo cacheado maltratado, uma pele suja e marcada de sinais e imperfeições, unhas mal cuidadas e dentes amarelados. Simplesmente não se conseguia perceber o quê aquele sujeito vira naquela criatura.

Era visível o ar de insatisfação em receber tal discrepante par naquele singular restaurante de Genebra. Os garçons apresentavam um semblante impávido que só podia significar forte desagrado, caso contrário, seriam risonhos como o eram com o casal da mesa ao lado. Por conseguinte, os demais clientes evitavam o olhar frontal, preferindo observar de "esguelha", como quem observa um criminoso a ser preso pela polícia depois de uma tentativa de assalto a banco.

Contudo e, para grande infortúnio dos demais, que gostariam de censurar Maria de Fátima pelo fim que esta dava ao seu corpo, ela estava muito aquém da capacidade que lhe permitiria captar esta atmosfera hostil. Era uma pessoa com um intelecto muito pouco desenvolvido, que mais se assemelhava ao de um animal, ou melhor, de uma fêmea em altura de acasalamento e que, já agora contextualizando a situação, havia encontrado o macho que lhe parecera mais indicado para "cobrí-la" e saciar suas naturais obrigações de fêmea.

Por outro lado, ele tinha plena consciência da situação. Da censura para com eles, o par discrepante, e da tamanha abstracção de sua acompanhante para com as circunstâncias. Entretanto, a única coisa que permanecia em sua mente era a sua ansiedade para descobrir o sabor do ponto húmido de sua acompanhante.

A ignorante e ignóbil mulher, sendo este o factor atrativo desta fêmea para este homem, o havia fascinado por completo. Não iria se apaixonar, para isso seriam necessários muitos outros atributos que ela jamais seria capaz de desenvolver pois tratava-se de uma criatura rasa, com a profundidade de um pires.

Aquele homem era ali, naquela mesa, naquele restaurante em Genebra, o macho que percebera uma fêmea em época de acasamento e lembrou-se das suas obrigações enquanto tal. Ele tinha esta percepção e não censurava a si próprio, aliás, isto o excitava ainda mais, e além dissso, ela o atraía fisicamente, gostava do formato dos seus seios e da maneira que punha os cotovelos sobre a mesa e lançava-lhe um olhar vazio, sem nenhuma mensagem.

Nisto ela era também intrigante, pois ele nunca antes estivera com uma mulher que não quisesse nada em troca. Havia sempre um pedido de casamento, de sexo, de amor no olhar das mulheres que havia tido.
Maria de Fátima abriu suas pernas e ele pôs dois dedos molhados de saliva em sua vagina. Ela abstraiu-se mais uma vez, dessa vez quase havia partido para outra dimensão, estava longe deste mundo. Ele penetrou-a pela primeira vez, depois uma segunda e terceira vez, penetrou-a quantas vezes quis e da maneira que lhe apeteceu. Ela era a fêmea que necessitava de seu esperma para cumprir sua obrigação natural.

Ele, mais tarde, lembrar-se-ia de que havia usado protecção contra as doenças mundanas, anulando assim o seu contributo para com a natureza. Iria também lembrar-se que, misteriosamente, a ignóbil ignorante criatura havia murmurado uma frase relevante no momento em que ele havia perdido suas forças e se debruçado por completo por cima dela. Aquela frase o irá chocar, ao constatar que se tratava de Vinícius em um de seus memoráveis sonetos.

Haveria afinal alguém dentro daquele corpo que parecia pairar e deambular sem rumo e consciência por este mundo?

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O porquê do meu silêncio



Rio de Janeiro, 20 de Dezembro de 1997

Oi Marquinhos!

Eu estou te escrevendo para explicar porquê eu parecia uma múmia quando você chegava perto de mim!!!rsrsrs... Lá vai:

O meu silêncio tinha motivo. Permanecia calada por adorar ouvir atentamente os teus comentários e as tuas risadas, até os teus pensamentos mais disparatados e estapafurdíos!

Não dizia nada porque havia tanta coisa para ser dita que o silêncio parecia a forma mais verdadeira de expressar todas as palavras que me vinham à cabeça.

As perguntas que não soube responder até hoje não têm resposta. Aliás, a resposta nem sequer interessa, só o poder ficar sem palavras alguma vez importou.

Finalmente, explico que eu não falava porque você me tirava o ar e me fazia sonhar.


De: Fabiana
Para: Marquinhos

Obs: já não gosto de você, desculpa ta! Beijooo

Almoço de domingo




Fazia um calor dos diabos naquela tarde de domingo. Estavam todos ali, sentados à volta da mesa, reunidos em família, para mais um almoço de confraternização. Irmãos, irmãs, cunhados e cunhadas, primos e sobrinhos, filhos e pais, mães e avós, crianças.

O marido traído age com naturalidade, puro medo de ser descoberto. Claro que todos já sabem, mas ninguém ousa manchar a honra da irmã querida que cometeu o pequeno deslize mencionado. Enquanto isso, a cunhada desconfiada se mantém apreensiva, ela a pensar numa forma de conseguir o que até o momento não conseguiu, ser aceite. Porem, não sabe ela que pouco importa quantas crianças ela venha a gerar e acrescentar à aquela família, ela será para todo o sempre uma estranha em seu seio.

O tio músico começou a tocar, a cantar e dançar. A ele juntam-se irmãos, sobrinhos e a empregada assanhada que gosta ou acha que precisa de insuflar o ego do patrão para assim conseguir levar parte da comida excedente para sua própria casa, assim também ela poderá financiar aos seus uma reunião parecida com aquela. Por sorte, o patrão tinha ido à pesca e saíram bons peixes, podia conseguir alguns.

Como já foi dito, o tio músico já estava animando o ambiente, nessa altura os amigos da família começaram a chegar e com isso surgiam conversas de todo teor. Por exemplo, quando não haviam mulheres nem filhos por perto, os homens reunidos sentiam-se à vontade para comentar sobre as suas ou as amantes dos amigos e conhecidos. Soltavam também exclamações saudosistas daquela vida boémia tão boa da juventude! De quando conseguiam pular muros para conseguir administrar as namoradas e não serem apanhados. Nestas alturas, as irmãs, amigas, primas, sobrinhas e tias ajudavam os vivaços rapagões a driblar as entusiasmantes situações e no dia seguinte esse era com certeza assunto predilecto de todos até o próximo acontecimento semelhante.

Alguns nunca viriam a conseguir esquecer essas memórias, estando assim presos a um passado que, como quem luta bravamente pela vida, tentavam até as últimas consequências mantê-las vivas. A esposa ainda não tem ideia da tamanha determinação do marido neste sentido. Entretanto, algumas irão combater a situação e encontrar uma saída, contudo, outras, por motivos profundos e obscuros, jamais conseguirão se libertar, afundando na areia movediça… lenta e dolorosamente.

Os filhos são amados, no limite do possível. Existem amantes, egos avassaladores e nestes casos não sobra o suficiente para os filhos, pais, irmãos, sobrinhos, para os outros. Contudo, os filhos estão bem, eles são os primeiros a comer, a rir, a gozar com as outras crianças, a entreter o ambiente! As meninas estão na sala, a brincar com as namoradas dos primos mais velhos, a ver televisão com as sogras e tias emprestadas, a contar umas as outras os últimos acontecimentos das vidas dos outros.

A empregada estilhaça um copo de vinho e a dona da casa zangasse sobremaneira com a maldita desastrada. Um copo de vinho faz muita falta na cristaleira! Ouvem-se alguns xingamentos mal disfarçados, um primo afastado pede calma e chama a patroa da desastrada à razão, o marido da patroa pede discrição à mulher pois eles “têm visitas!”. A pobre coitada da cínica empregada já sabe que terá que se rebaixar um pouco além do por si imaginado para conseguir levar o tão almejado peixe para casa.

A amiga lúcida que de tanta lucidez começou a dar sinais de frustração com aquela gente tão hipócrita e mesquinha, já começava a sentir vontade de dizer as grandes verdades que via mas, sabe-se la porque, mantem-se sentada e a rir-se das anedotas e histórias desenterradas dos bons velhos tempos. Suas verdades podem ser adiadas para a próxima reunião, não vale a pena estragar o momento, além do mais o vinho está muito bom!

sábado, 18 de setembro de 2010

Terezinha de Jesus



A missa comecava sempre a mesma hora e era de uma pontualidade que, em certas ocasioes, chegava a ser perturbadora. Por exemplo, quando morreu Sr. Alfredo, marido de D. Amelia Pinto, a missa decorreu como sempre, numa assustadora tradicao. Os leais fieis mantiveram-se fieis, leais e curiosos, porem calados, apesar da vontade de uns, em saber os detalhes da morte do dito cujo e outros, mais nobres, em consolar sua viúva.

Aquando do nascimento do quinto neto de Manuel Sodre, o dono do mercado que ficava proximo a igreja, a comunidade paroquial ficou em polvorosa porque com mais esse menino perfaziam 15 criancas para serem batizadas num só dia.

Muitas avos, maes e tias comecaram a fazer um grande fuxico acerca da missa de batismo. Estavam tao angustiadas com a futura cerimonia que ja nao dormiam nem comiam direito, a excecao de Terezinha de Jesus, que ria prazerosamente de todas elas quando ouvia seus lamentos e preocupacoes acerca do tal domingo.

Coisa engracada em momentos como esse e o comportamento dos homens num ambiente dominado quase que completamente por mulheres, nao fosse o padre, as criancas do sexo masculino que irao ser batizadas e os pais destas mesmas criancas, mas ainda mais engracado era Terezinha de Jesus, uma senhora muito pobre e humilde, no seio dessa comunidade. Sabia, aconselhava muito a juventude e desejava sempre as meninas, quando, por exemplo, se despedia de uma moca jovem que a tivesse visitado, que esta fizesse um bom casamento. Nestes momentos, Terezinha de Jesus entrava numa especie de transe e suas memorias a faziam lembrar a sorte que teve em sua vida.

Era pobre, analfabeta, nao sabia manejar muito bem os talheres e com um falar tosco conheceu Jose, seu marido e cumplice de uma vida. Fora uma mulher comum, nada tinha ela de extraordinario, nem sequer sua feiura a fazia se destacar, era banal. Contudo, possuia um olhar revelador, que destrinchava bravamente qualquer personalidade que em seu caminho se pusesse. Aprendera a conhecer sua humanidade muito cedo e depois tratou de investigar essa mesma humanidade em seus semelhantes.

Terezinha de Jesus era calma e apesar da ignorancia inicial era dona de uma cultura e classe que abobalhavam ate mesmo os mais credulos. Na realidade, Terezinha de Jesus era um charme so, sua aura elevada sobrepunha qualquer mal-entendido que os preconceitos terrenos, num primeiro momento, sugerissem. Sua aparencia era completamente ofuscada pela violencia com que sua encantora personalidade se manifestava. Daquela trivial caipira saia uma voz tranquila, gostosamente falada e ritmicamente expressada. Seus olhos fixavam seu interlocutor de tal maneira que a pessoa se sentia escrutinada, mas eles, os seus olhos, so estavam interessados em ver seu semelhante, eles queriam ouvir suas lagrimas e reflectir sobre suas eventuais olheiras que grosseiramente sombreavam suas varias faces.

Assim era Terezinha de Jesus, que sentava-se com os joelhos juntos e punha as maos entrelacadas sobre eles tal e qual o protocolo a ser seguido por uma princesa europeia. Terezinha de Jesus era da opiniao que uma mulher deveria, sempre, saber comportar-se, saber estar, como dizem as pessoas. Uma mulher nao deve chorar suas tristezas com qualquer amiga ou vizinha, uma mulher nao pode, em hipotese alguma, contar suas intimidades matrimoniais. Seu casamento e assunto privado e nao devem haver mais de duas pessoas envolvidas nessa questão.

Terezinha de Jesus tambem achava que as mulheres eram muito bobas porque se importavam com o menos importante, o exterior. Quanto mais pintadas pela maquilhagem mais desinteressantes se tornavam aos olhos masculinos. Os homens, pensava Terezinha de Jesus, eram mais inteligentes que as mulheres, mas nao por serem superiores, o eram, simplesmente, porque as mulheres, essas sim, eram burras.

Terezinha de Jesus so conheceu uma mulher inteligente em toda a sua vida, a patroa de sua mae Hermerenciana, D. Joaquina Nunes, mulher casada e mae de dois filhos, esposa de Sr. Emanuel Fernandes, fazendeiro muito rico do interior de Minas Gerais que havia sido educado num colegio interno na Suica. Ele falava um frances perfeito, segundo seus convidados, que enchiam a casa durante os grandes jantares organizados na fazenda. Mas era D. Joaquina Nunes que mais comovia Terezinha de Jesus, seu equilibrio e quietude em meio a toda aquela ostentacao intelectual a deixavam perplexa e admirada. Sua humilde altivez, sua sanidade imaculada e sua simpatia inteligente a arrebataram de uma so vez. Foram meses dedicados a investigacao e reflexao sobre tal curioso caso. Porque sera que D. Joaquina Nunes a fascinava tanto?
Terezinha de Jesus, uma entao menina de 13 anos, rebolava na cama a matutar sobre o assunto, quando um belo dia percebeu que logo depois do almoco D. Joaquina Nunes sumia por duas horas. Nao tinha percebido antes porque nesta altura do dia ia sempre acompanhar as criancas mais novas ao catecismo, mas como padre Antonio havia ficado de cama por causa de uma gripe muito forte e como nao haviam conseguido arranjar um substituto que pudesse comandar a catequese naquele dia, Terezinha de Jesus, para nao se habituar a vida mansa, como dizia sua mae, havia ido ajudar D. Chica com os afazeres domesticos na casa grande da fazenda.

Durante todo o almoco nao tirou os olhos de D. Joaquina Nunes. Foi com esmero que serviu a mesa e com muito cuidado tratou tambem de disfarcar o quao emocionada estava naquele momento. Logo após o almoco, deu conta que D. Joaquina Nunes nao mais estava na sala de estar, a fazer o seu croche.

Desesperada, entrou na cozinha e D. Chica, ao mesmo tempo que ria, tratava de informar a menina, por compaixao, que sua “esperanca” se encontrava no escritorio a ver “ os rabiscos nas foias de parpeli”. A menina correu loucamente para a janela que dava para o escritorio e foi ali que descobriu o sentido de tudo. O segredo estava todo ali, nas maos de D. Joaquina Nunes, que tinha o estranho habito de o ler em voz alta.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A Boba



Eu sei que tem gente que pensa que eu sou boba, bobinha, boboca... A bem da verdade, eu realmente sou boba, mas o sou por escolha. E verdade, eu fiz uma escolha! Acho que muita gente passa por essa fase, em que podemos escolher como queremos ser. Assim definimos o que, terminantemente, nao faremos.

Eu decidi que preferia ser uma boboca, mas nao qualquer bobinha por ai... Eu sou uma boba da Clarice! Porque segundo ela, existem os bobos e os espertos, e bem, os bobos parecem ser mais espertos que os espertos. Assim sendo, e por confiar na Clarice, assumi minha bobeira.

Minha vida de boba me mostrou muita coisa, um monte de verdades. A realidade gostou de mim e batemos um papo bem agradavel la no Jardim Botanico, junto dos passarinhos do Tom.

Existem muitos espertos e por existirem tantos, tenho me tornado cada vez mais bobinha. Os espertos sao muitos, alguns ate tem cara de bobos mas sao os que tem mais esperteza. Por vezes, tambem me confundem com uma espertinha, mas o meu inato silencio traz a tona minha bobeira e todos se apercebem que poderia ser esperta mas que nao sou.

Os espertos gostam de ser assim, gostam do palco e sao realmente muito bons nisso. Existe tambem uma outra classe de espertos, os dos bastidores e esses sao os grandes maestros. Os bobos compram os ingressos e assistem o espetaculo de camarote, na maioria das vezes. Os bobos sao os criticos, e com suas criticas dao animo aos espertos para continuarem sua vida artística.

Os espertos, por serem exactamente isso, espertos, acham os bobos muito bobos e nunca mudarao sua vida de esperteza por uma simples bobeira. O bobo sempre sera bobo, porque sendo um bobo ele consegue sentir coisas que aos espertos, passam despercebidas. O bobo gosta de ser bobo, ele esta imune a toda esperteza do esperto e a bobeira do bobo, por ser boba, consegue chegar aonde a esperteza nunca tera interesse em ir.

Todo bobo ja foi esperto, ou melhor, todo bobo e esperto mas nenhum esperto consegue ser bobo porque ele e esperto demais para uma bobagem dessas.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A descarada!



Tenho que parar de inventar personagens para mim mesma. Tenho que deixar disso, essa psicose meio paranoica e doida! Poxa, tenho que deixar de imaginar todas essas situacoes inusitadas que nunca irao acontecer! Mas, sempre vem um MAS...

Cara, eu estou sempre me reinventando, sei la... e quando eu faco o que eu quero, exclusivamente o que eu quero, sinto um vazio depois, alguma coisa fica sempre faltando. Entao eu me calo e escuto, rio e so comento...

Odeio quando percebo que alguem e burro, quando alguem esta sendo estupido e idiota, me sinto ma. Quem sou eu para julgar alguem? A sociedade nos educa a respeitar tudo, ate as maiores besteiras e bobagens que se ouve por ai. Acho que e por isso que nao consigo atestar um babaca como tal, puro pudor moral e auto-flagelante.

Ah, conheci ele hoje. Ele e super gente boa, fala pra caramba e imita um monte de sotaques! Relacao ao...ao..., e um figura. Me apaixonei, putz cara, me apaixonei. Tambem nao podia ser de outra maneira, ele tem um jeitinho especial. Me mostrou coisas novas, me lembrou do que nao devia ter esquecido e bom, me fez feliz.

Agora eu ando pensando em mais uma personagem, ainda nao sei bem quem ela e, do que gosta ou se gosta de alguma coisa. Parece quieta demais, estranhamente falante, as vezes, e pedante. Sei que e simpatica, bonita e pequenininha... talvez seja inteligente ou, se calhar, so bem informada. Ela esta meio perdida, foi a impressao mais definitiva que tive, porque ela tem muitas opinioes e quem tem muita opiniao nunca sabe muito bem o que pensar, sao sempre meio contraditorios. Acho que e por ai, ela e bem erractica, como se fosse muitas numa so, meio aluada ou de fases.

Peguei ela ouvindo Los hermanos, Simply Red, MGMT, Patrice, U2 e cara, Gabriel, o pensador... So pode ser crise existencial! E dificil estipular uma personalidade a uma criatura tao "versatil", assim fica complicado criar uma historia. A nova dela e essa historia do MAS, vou ter que escrever um POREM no lugar.
Menininha velha, so que interessante. Tem uma risada gostosa e essa risada a entrega por completo, a mascara cai toda vez que ri, e muito expressiva a moca. Eu acho que ela e feliz mas adora se fingir de melancolica. Sabe aquele charminho frances?! A nostalgia escancarada nos filmes deles! Entao, so pode ser isso... Por isso a impressao de ela estar perdida, ela cria os seus proprios comportamentos, como quem separa a roupa do dia seguinte na noite anterior.

Como toda boa frasa, ela e efemera. E ai sim, por saber que esse dia vai chegar, eu fantasio situacoes e especulo sobre o que estara por baixo dessas mascaras que dao vida a personagens tao meticulosamente criados e apresentados. A mente por detras disso tudo tem que ser no minimo DESCARADA!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A livraria



Era uma vez uma moca chamada Marina. Ela tinha 19 anos, estudava Historia e queria ser uma pesquisadora. Marina era morena, cabelos cacheados, pele clara, sorriso facil, meiga e carinhosa, um pouco magra, baixinha e simpatica. Era inteligente, altruista de forma negativa... pensava muito, complicada de uma forma estranha, preguicosa e ansiosa tambem. Vivia em Lisboa, no ano de 1989.

Marina era bonita, tinha um corpo delgado, esquio e elegante. Possuia um ar amavel, amoroso e bondoso. Era de um temperamento calmo, sossegado, mas acutilante, agitado e nervoso quando posto a prova.
Um belo dia, numa livraria, Marina conheceu Gabriel. Andavam a procura do mesmo livro e a primeira coisa que viram um no outro foram as suas maos a disputarem o objecto. Ia realmente virar uma batalha, se nao fossem os cachos de Marina a desviarem a atencao do sujeito, que parecia ter ficado admirado e embevecido, ao que Marina pensou "coitados, tao visuais...".

O obvio, ja que se trata de uma historia romantica, aconteceu. Ja la iam 2 meses de intensa sintonia e companheirismo, alegria de um amor com sabor de fruta mordida. Gabriel era um cara genial, Marina e que havia sido a sortuda porque ele era excelente. Defeitos, claro! Uma coisa muito comum em pessoas inteligentes e aquela arrogancia escondida no inconsciente desses individuos, mas Gabriel era uma excecao! Seus pecados eram outros, mais nobres... menos sujos.

Ele tinha sacadas hilarias, era expressivo e comedido, de uma sagacidade invejavel. Marina era uma menininha engracadinha, espirituosa e comica a seu jeito. Tinha mania de cheirar coisas novas, escrevia com as duas maos, adorava tirar meleca do nariz quando estivesse sozinha, gostava de solidao em muitos momentos e Gabriel, bem... Gabriel era sociavel, comunicativo e astuto.

Um belo dia, Marina avistou o fim. Ja estava na hora daquilo acabar, porque ninguem podia viver tao bem como ela vinha vivendo nos ultimos tempos. Sua vida sempre foi de fases e era a isso que estava habituada, fases e ciclos. A partir desse dia passou a aguardar ansiosamente o fim... Acordava de madrugada e olhava o relogio a espera que tambem ele acordasse e terminasse o amor dos dois.

Gabriel percebeu que algo estava diferente, Marina ja nao sorria como antes, ja nao conversava como antes, ja nao ria como antes, ja nao dormia como antes! Ela ja nao era a Marina, era uma outra qualquer. Passou a desconhece-la, paulatinamente. Finalmente, chegou o dia tao aguardado por Marina e com um olhar soube que o fim fora decretado. Houve uma semana de descanso ate o momento tao sonhado pelos dois.

E assim, Marina iniciou sua nova fase e foi assim tambem que Gabriel se encantara por Joana. E o tempo passou, algumas coisas melhoraram, outras mantiveram-se.

Um belo dia, numa sexta-feira tumultuada, Marina teve que ir a uma livraria comprar um presente a uma amiga que fazia aniversario. Gabriel queria comprar um CD, uma colectanea do Caetano. Marina e Gabriel cruzaram-se novamente, na fila do caixa. No olhar admirado de Gabriel via-se que Marina agora era uma mulher, e ele quase se deu conta de que ela sempre fora o amor de sua vida... porem, nessa hora, ela fez-lhe uma pergunta, a qual ele nao percebeu e teve que pedir para repetir. Ficaram ali, por uns 3 minutos a darem suas noticias um ao outro, trocaram telefones e prometeram ligar.

Gabriel se apercebeu do que faltava em sua vida e Marina soube o quanto ele havia feito falta na sua.

domingo, 8 de agosto de 2010

Maria, a da Farmacia



Todas as tercas-feiras Maria tinha 2 horas para o almoco. Trabalhava na farmacia da esquina de sua casa. Toda a sua vida esteve ali, no seu bairro, Santa Cruz da Serra. Era uma moca comum, nela nada havia de incomum. Contava 27 anos, solteira, com algumas historias, sonhos e planos tambem. Nao era bonita, era comum. Almocava todos os dias no botequim do Seu Milton.

Curiosamente, naquele dia sentia-se diferente. Podia ser a TPM, podia ser do calor, mas na realidade, o motivo nao a preocupava tanto assim... Comecou a reflectir sobre factos passados, viu-se ridicula em muitas situacoes e isso arrancou-lhe gargalhadas, mas surpreendeu-se com o quao aberta foi com meros estranhos, pessoas que ate hoje ela cumprimentava e conversava mas com quem nao criou vinculo nenhum, apesar dos anos.

Eram nessas coisas que Maria pensava quando uma mosca pousou em seu refrigerante e era nisso que continuava a pensar quando a afastou tambem. Percebeu que houve um momento muito delicado em sua vida, um momento em que se expos demais, sem motivo, por pura inocencia ou fragilidade. Deu passos errados, sem pensar... Juntou-se a multidão.

Compreendeu que em muitas situacoes nao teve personalidade nenhuma, nao havia muito ali dentro na altura. Assustada, pousou os talheres e perguntou-se se esse passado era longinquo ou se ele ainda estaria conectado ao seu presente. Seria assim tao patetica? Quis culpar-se, mas lembrou-se das muitas culpas que ja carregava consigo. O que faria Maria dali para frente?

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Sensatez



Ansiedade nunca foi coisa boa ja dizia minha vo Luzia. Uma pessoa ansiosa tem o tempo do descanso assaltado pela ansia de um futuro que irremediavelmente vira... Mas a loucura e tao absurda quanto isso, a paz vira tormento e aquele tempo tao precioso, criado para o ocio afim de uma recarga natural, transforma-se numa batalha onde o desespero e sempre o vencedor.
Tardiamente o ser humano torna-se capaz de lidar com essa profunda emocao, que acredito eu, esta ligada com a maturidade emocional. Saber controlar os impulsos e desvarios nunca fez mal a ninguem, dizem agora, os mais velhos. Enfrentar mares violentas e saber por a cabeca no lugar certo e uma coisa possivel, nossa inteligencia de homo sapiens nos permite ter essa capacidade... tao exclusiva, diga-se de passagem.
O motivo de ser tao dificil adoptar-se um comportamento expressamente natural e ponderado e para mim, desconhecido! O que vos digo remete a implacavel verdade da sensatez. Bom senso nunca antes fez tanto sentido. Nos dias que correm ser lucido e uma "habilidade" capaz de determinar nossa sobrevivencia nesse mundo de maluquices cada vez mais bizarras e psicologicas.
Pense, reflicta... reflicta mais um pouco, depois, analise mais um bocado. Leia, ouca, pergunte, indague, verifique como for possivel, construa puzzels, desconstrua e reveja as possibilidades. Finalmente arrisque, e sempre um risco, um risco bem grande, mas viver e correr riscos. Se der zebra, "zebrado" estaras. As listras ensinar-te-ao alguma coisa, disso tenho a certeza, e eu ca sei do que falo. Quando estiveres a meio do caminho, nem por um segundo olhes para tras e te perguntes " Se?..." Simplesmente nao existe o tal de "Se..." caso encerrado! Quando o "Se..." ja nao fizer sentido algum, ai realmente estas curado.
A vida pode ser uma doenca, a vida, por vezes, mata. E uma morte lenta... Sempre sera.

domingo, 18 de julho de 2010

Gente grande!



Braulio ja estava comecando a se cansar daquilo. Ja nao era nada parecido com o que outrora havia sido. No principio estava encantado, todo bobo com sua paixao! As afinidades indicavam que sim! Era ela, so podia ser ela!
O tempo vai passando e com ele muita coisa passa tambem, e arrastado junto com ele. Como um buraco negro que suga toda a existencia ao seu redor. E uma pequena morte...
Obviamente que sente tristeza, profundo pesar pelo rumo que a sua "Paixao!" tomou, sente que foi um pequeno fracasso seu, uma fraqueza.
Como ser humano que e, pensa onde estaria o erro. No meio ou no inicio?! Porque ainda nao existe um fim. No entanto, no inicio nao poderia ser, uma vez que fora tudo tao magico e excitante... definitivamente o erro nao estava no comeco. Por eliminacao, descobriu que o desenrolar era o culpado do fim de sua paixao!
Nao soube lidar com a saudade, a vontade de sexo, a necessidade de ver e falar com sua paixao! Queria tudo a mao, burlava limites necessarios afim de saciar-se. Nao soube ou simplesmente nao quis respeitar os sinais.
Braulio agora esta no meio do caminho... esta para descobrir que tudo tem sua forma de ser, seu meio e seu destino.
Ha que saber que a vida e constituida por regras, regras universais. Toda accao provoca uma reaccao directamente proporcional... E preciso respeito, juizo e maturidade para se viver uma real paixao! Nao sejamos amadores. Alias, amor nada tem a ver com paixao... amor e muito, muito mais elevado... amor e para gente grande!

Os dentes de marfim



Por esses dias que correm, muita coisa aconteceu. Constatacoes foram mais uma vez,confirmadas! Duvidas ultrapassadas, desejos saciados, uma nova realidade acaba de ser instaurada.
Ela poderia ficar feliz, deveras feliz, se nao fosse a sua natureza ansiosa e, um tanto masoquista, a explorarem sua linda imaginacao, a imaginacao de uma crianca. Sofia era querida, um encannto de menina, um carinho de bochechas e doce como seu pirulito, ou sambapito. Quem dela se aproximasse, sentiria quase que imediatamente o saudosismo, ora gostoso, ora doloroso, da inocencia pura de uma verdadeira crianca.
A menina tinha mesmo carisma! Suas amiguinhas ja comecavam a inveja-la... os meninos nao eram mauzinhos com ela e pasmem! Recebeu uma flor do Renatinho, o chefe da gang do bairro... era o mais travesso de todos, zanzava pela cidade ate o anoitecer e nao temia ninguem.
A vida corria bem para Sofia. Sofia era um doce de menina, inteligente tambem, bonita a sua maneira mas apaixonante desde do primeiro instante. Contudo, Sofia tinha medos, muitos medos e receios, pesadelos de vidente, dentes de elefante, de um marfim muito raro... Sofia tinha mesmo muitas duvidas, uma grande necessidade!
Sofia queria crescer, ser mais velha e forte para enfrentar seus monstros.. Sofia rezava todos os dias para crescer e ficar mais velha...