domingo, 24 de junho de 2012

Luísa e sua emancipação intelectual




Extremos, porque os extremos? Extremistas, extremismos? Luisa, menina bem educada, católica apostólica romana não praticante, mas ia à missa aos domingos duas vezes por mês. Boa aluna, tinha aprendido a frigidez necessária para uma fêmea humana ser "reconhecida" como mulher digna.

Mas Luisa tinha algo mais, uma curiosidade ambiciosa. Perspicácia para perceber que algo não estava bem, que a desigualdade é um desequilíbrio. Conheceu Beauvoir e soube que era um caminho sem volta, e também ela já não queria voltar.

Percebeu o egoísmo ao qual as mulheres eram subjugadas para mostrar o seu valor. Era necessário desprezar o homem que ela queria, era preciso levá-lo a loucura da espera, era preciso ser diplomada em sadismo para ser vista como uma desejada fêmea-mulher.

Luisa se rebelou, resolveu assumir-se, ser um mulher consciente da sua condição de fêmea. Elevou-se ao próximo nível. O homem que ela desejasse seria amado, teria um pedaço dela, os seus sorrisos, uma parte dos seus sonhos.

Mas Luisa era ela, o nome dela era ela mesma. Luisa era sua dona, consciente, verdadeira. 

Mulheres, Vulgares. Uma noite e nada mais!



Pró-mulher, essa música é pró-mulher. Nossa sociedade comercial deturpa nossos conceitos, isso é ponto assente. Mas existem exercícios, de memória, para que não esqueçamos a definição certa destes mesmos conceitos que o ritmo frenético da "sociedade de informação do séc XXI" deforma por insistência.

Dizem que quem está dentro de uma situação não tem o mesmo poder de análise de quem está fora. Acredito nesta frase. Por isso, mulheres deste século, vamos prestar atenção a mensagem dos homens de verdade. Já que o poder que nasce connosco no meio de nossas pernas nos põe no meio do turbilhão, vamos ouvir quem tem tempo para refletir e analisar melhor a nossa situação.

Que os homens bons nos sirvam como uma bússola de urgência para encontrarmos um esconderijo para nos (re)compormos e compormos o nosso discurso, a nossa (re)estruturação, até as mulheres vulgares passarem a uma espécie em extinção.


Maturação do amor




Como é bom ser amada. Sentir a espera do ser amado chegar, os beijos, os corpos, as almas. É bom ser amado pelo ser que amamos. Frenesi sem fim, pura excitação!

Mas, o amor correspondido pode ser limitador. Temos aquilo que desejamos, e paulatinamente a humildade já não se justifica. Os outros já não importam tanto como antes. Surge o egoísmo?

Quando não correspondido, o amor pode findar. Quando não correspondido, o amor pode amadurecer até perecer. Esse perecer não é morte, ou até pode ser, se morrer significar se transformar.

A transformação é a sua maturação, maturação daquilo que não findou. Quando um amor não correspondido atinge a maturação, é como se ele ultrapassasse a necessidade de ser correspondido.

Eu amo, este amor existe, e por se tratar de amor, a sua existência já basta. Mas, o que é amor? O que pode vir a ser o ato de amar?

Amar... é saber respeitar. Respeitar o amor não correspondido. É querer bem, é saber que aquele amor não correspondido foi a chave que nos levou a libertação, de nós próprios.

Graças a esse amor não correspondido podemos aprender a amar, de verdade. A maturação do amor é intemporal, atemporal, é diária. A maturação do amor liberta, liberta na medida certa.

Erykah Badu




   Não me lembro quando vi o vídeo "Window seat" da Erykah Badu. Lembro do impacto que teve em mim. Foi grande, perturbador. Senti uma certa inveja... me identifiquei. "Não" aos grupos, "Sim" ao direito de nos ausentar, de nos fazer presentes, quando quisermos, quando pudermos.

   Que possamos ter essa felicidade, da compreensão de nos deixarem ir e vir quando pudermos, quando quisermos, sempre que quisermos, sempre que pudermos. Que me amem assim, é o que deveríamos pedir, é o que deveríamos oferecer.

   Que sermos nós não seja difícil, que não seja estranho... Isso vou ensinar ao meu filho, Ondjaki.

sábado, 16 de junho de 2012

A desmistificação




Como nos perdoarmos e nos reinventarmos? Sem dúvida isto alguma vez será necessário, por mais letárgicos que possamos ser. Para alguns será um puro instinto de sobrevivência, para outros, uma evolução pessoal, de maturação.

Não podemos fazer o que nos apetece, é anti civilizacional. Controlar ímpetos e inclinações é o início dessa domesticação do nosso animal interno, porém esta censura só é salutar quando regida por nossa essência, que como dizia Sartre, sucede nossa existência.

Temos formas de nos educar, de sermos responsáveis e conscientes de nós próprios. É no entanto, uma árdua tarefa, diária e implacável. E as virtudes? Tão difíceis de se entender e praticar!

Altruísmo, solidariedade, dignidade, simplicidade e humildade. Tão exaustivas e irreais em muitos momentos. Como tudo seria mais simples se o caos fosse a ordem da vez! A impulsividade realmente nos é algo intrínseco.

Ponderação, auto consciência, responsabilidade e compromisso? Elos de pesado fardo, limitadores e infelicitáveis. Uma prisão contra natura.

Mas, não será exactamente por serem contra natura que nos são tão imperativos? Digo, se nos é algo exterior, ausente de nossa natureza, não serão por isso imprescindíveis ao nosso aprimoramento? Os ingredientes que nos faltam, o que nos completaria?

Alguém disse que isso era tudo uma bobagem, divagações e meras especulações. Afinal, esses filósofos franceses eram todos uns chanfrados e obscenos. Mas vale sermos o que somos, nos aceitarmos e já está, a vida não pára!

E se vivermos muitos anos?! Não será um pouco insuportável vivermos tanto tempo de mal com nós próprios? Quer dizer, viver assim, em negação… nos estapeando antes de dormir com a cabeça na almofada. Sou da opinião de que é um pouco doloroso demais. Com o aumento da expectativa de vida, mais vale começarmos a tentar resolver essas questões, talvez refletir um pouco sobre nós, pensar naquela nossa atitude errada e nos nossos repetidos mesmos erros consecutivos relativos ao mesmíssimo assunto, eles talvez sejam somente uma forma de não esquecermos de analisar de verdade aquela importante questão interior.

E alguém acrescentou… sim, esse tal erro talvez seja um simples pretexto para nos fazer pensar, pensar naquilo que naturalmente não queremos pensar. Não são os naturalismos induzidores ao erro?

domingo, 22 de abril de 2012

A máquina fotográfica




Helena acordava agora da anestesia. Seu parto havia tido complicações de última hora e portanto teve que ser submetida a uma cesariana.Sentiu seu corpo doer de forma abismal, o ventre estava extremamente pesado e os seios latejavam de tão inchados que estavam por estarem cheios de leite para amamentar sua cria.

 Sofia era pequena, linda. Chegou com o lacinho rosa que haviam comprado para aquele momento e vestida com a roupinha de crochê feita por sua avó paterna. Bocejava angelicalmente e contorcia os dedinhos enrugados que não sabia ainda controlar. Foi à ela entregue, a sua progenitora.

 Helena não soube frear esta emoção, não soube sequer analisá-la, limitou-se a senti-la. Uma forte e incomensurável repulsa a invadiu, teve náuseas e horror por aquela criatura que se encontrava em seus braços, que havia saído de dentro de si e que agora instintiva e cegamente procurava o bico do seu seio para se alimentar. Seu desespero foi avassalador. Suas mãos passaram a tremer e a suar, sua boca criou mil e uma rugas à sua volta e seu cenho franziu sorumbaticamente. Quis fugir daquele ser que repudiava grotescamente.

 Neste instante, Gilberto entrou no quarto, trazia um cesto de flores, balões e uma máquina fotográfica. Odiou-o profundamente, sentiu nojo e desprezo por aquele bondoso e trabalhador homem que era o seu marido. A felicidade resplandecente patente em seus olhos foram o golpe final para que a repulsa por ele se instalasse definitivamente em seu âmago.

 Helena pediu a Deus para morrer, lembrou também de seus sonhos de menina, de suas aspirações e desejos. Por fim, sentiu um consternador remorso, estava condenada. Pôs-se a chorar e Gilberto soube captar, prontamente, o momento de suas lágrimas com a sua máquina fotográfica.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Nós e os outros



Nascemos, e em condições normais, seremos amados e educados por nossos progenitores. Aprendemos a experienciar a vida, a codificar percepções e a formular as nossas próprias ideias através desta complexa simbiose.

Porém, pessoalmente assumo as diferenças que nos caracterizam e individualizam como o grande motor de nosso primeiro fatal destino. Digo primeiro porque acredito que o livre arbítrio que gozamos seja poderoso o bastante para que possamos alterar a marcha desenfreada da nossa realidade aparentemente inquebrável.

A felicidade exige competência. Muitos de nós, os humanos, fazemos uso do rico leque de contrariedades que nos desencaminham do bem comum. A falta de apoio moral, de incentivo ao desenvolvimento pessoal e intelectual advindos dos reveses da vida são tidos como determinantes e assim sofremos.Coragem faz parte dos requisitos básicos.

Que os momentos de máxima solidão sirvam como análise. Que nossas falhas nos chamem à realidade do mundo, que o orgulho não nos limite. Que saibamos perder. É também necessário compreender que a felicidade é como nós, única. Portanto comparações sempre nos conduzirão ao erro.

A superficialidade do pensamento só nos permitirá experimentar a vida desta forma, na superfície. Assim corremos o risco de realmente nunca ter sentido a vida na realidade.

Por fim, um exercício diário. E se nós fôssemos o outro?
Este texto não é de minha autoria, porém achei por bem partilhar convosco.




INDICAÇÕES PARA COMBATER A TRISTEZA E MANTER A ALTIVEZ
DA ALMA EM TODA A SUA VIRTUDE

"Aquele que deseja as coisas que são passageiras pode
ser considerado um homem infeliz, ao passo que aquele
cuja vontade se cumpre é um homem feliz."

"Aspirar a felicidade e nos guardar de sermos
desgraçados é possível se fazemos com que nossa
vontade e aquilo que desejamos estejam além daquilo
que nos chega pelo mundo sensível, mutante e instável
e também, se não nos entristecemos com aquilo que nos
escapa do mundo sensível."

"Se não existe o que queremos, devemos querer o que
existe e não preferir a persistência da tristeza no
lugar da persistência da alegria."

"A quem se entristece com a perda das coisas que se
perdem assim como com a necessidade das coisas que se
necessita, a este jamais desaparecerá a tristeza
porque, em todas as situações da vida, perderá objetos
amados e se-lhe escapará aquilo que busca."

"Visto que a alegria e a tristeza não podem coexistir
no mesmo instante na alma, devemos fazer com que
nossas almas estejam satisfeitas em todas as
circunstâncias mediante uma condução correta que
proporcionamos a ela."

"E nessa senda devemos conduzir nossa alma aos
costumes excelentes e acostumá-la a isso até que
forjemos um caráter que torne a vida agradável durante
o tempo de nossa existência."

"Como não podemos nos manter totalmente isentos de
estarmos tristes e como faz parte da natureza
tropeçarmos na tristeza, devemos ao menos ter cuidado
em reduzir o tempo em que ela dura em nós."

"Se realmente houvesse um motivo para nos
entristecermos este deveria ser o da separação de
nosso verdadeiro lugar e de nossa verdadeira pátria,
onde não há carências nem desgraças, nem perdas nem
coisas inalcançáveis"

quinta-feira, 29 de março de 2012

O anfitrião



Não era doce, era obstinado e estranhamente insatisfeito. Dizia-se que assim o era por natureza.

Acordava muito cedo e tomava o café fumegante, cumprimentava as pessoas que, no caminho até o estábulo, ia encontrando e uma vez lá, montava Zeus, seu cavalo puro-sangue.

Era um garanhão negro, de olhos orgulhosos e postura arrogante, ele, no entanto, não o era, possuía algo mais refinado, mais dignificante. Ninguém nunca soube, contudo, encontrar palavra para qualificá-lo, talvez ainda não existisse.

Petrópolis em Julho era sempre enevoada e fria. Os cheiros eram densos e prolongados. O verde circundante renovava os pulmões escurecidos e, portanto, a casa servia-se de muitas presenças e "eus".

Eram épocas alegres, semanas majestosamente vividas e partilhadas. Grandes serões e temas, gargalhadas marcantes, charutos e cigarilhas horrendas, mulheres e homens singulares e, ainda assim, elegantemente comuns, e ele, o anfitrião.

Adorava receber os amigos, ouvir seus pareceres sobre as maiores trivialidades da vida ou sobre as grandes questões da humanidade.

Era gentil, apesar de tudo, jamais foi grosseiro ou ríspido e isso admirava a todos. Nunca se soube comprendê-lo, a ele e aos seus motivos.

Penso que nunca se quis, verdadeiramente, entendê-lo, o que se queria era, vorazmente, transmutá-lo, eliminar aquele elemento nele tão vivo e que feria a todos a sua volta.

Ele era radioactivo, infligia pensamentos angustiantes até com o seu silêncio. Sua incomum natureza atingia a todos que se lhe pusessem a frente e por isso foi punido com o ostracismo natural advindo da ignorância e pequenez humana.

Julho era a excepção, era nesta altura que o seu inquietante e violador silêncio assumia sua poderosa voz.

Que te tornes Homem




Que os teus dedos estejam calejados ao tocarem o corpo de uma mulher
Que os teus olhos estejam conscientes do peso das tuas dores
Que, contudo, tenhas sempre um sorriso a despontar imprevisivelmente
Que aprendas o valor de ser correcto, trata-se de uma corrente universal

Que não corrompas o teu espírito e a tua boa-fé
Que domines a tua insegurança e medos profundos
Que sejas o que ainda não és mas o que podes vir a ser
Que superes o teu nariz arrebitado e aristocrático e que o sangue azul que dizes correr em tuas veias, enobreça, por fim, a tua alma e o teu caminho

Que peças perdão e que te arrependas sinceramente
Que quando te arrependeres não esperes que a ordem dos acontecimentos se altere, independe de quereres
Que te apercebas que o silêncio que a tua amada te oferece é um dos seus maiores e mais generosos presentes
Que a cruel sinceridade seja encarada como real empenho em compartilhar

Que o meu útero não seja argumento
Que o teu pragmatismo não seja virtude
Que o nosso tempo se torne intemporal
Que o nosso abraço seja sempre um prelúdio

domingo, 21 de agosto de 2011

23:43




23:43, era uma sexta-feira abafada. A festa estava quente, as pessoas sentadas em grupos, observavam de esguelha as outras mesas à procura, à caça. Ela sabia disso, também ela assim o estava, agora que eram 23:43.

Aquele homem ali era algo destinado, ele não pertencia àquele lugar, ela sabia-o perfeitamente. Não deixaria essa oportunidade passar, era um sinal de suas mais íntimas crenças pessoais.

Sentiu sua presença. Pôs seus olhos sobre ele e sentiu um ímpeto em seu âmago, sua saliva tornou-se mais espessa, seus poros abriram-se um pouco mais...

Não era sentimento, era pura excitação, vontade de sexo. Seus cabelos claros e longos presos de forma feminina despertava seus sentidos, adorava essa pequena androginia característica nesses homens.

Lembrou-se de Eduardo, finalmente percebeu o seu ponto de vista e concordou, ele tinha a razão. Sentiu uma pequena revolta, por mais vontade que tivesse daquele homem jamais conseguiria realmente viver aquele momento sem ferir a lealdade que nutria por seu companheiro.

Lembrou-se que na altura em que o mesmo lhe sucedera, ela não aceitara o que agora desejava impiedosamente.

Com o olhar turvo pela lascívia, chegou-se a ele e permaneceu ao seu lado, pensativa e calada.

domingo, 8 de maio de 2011

Os orgasmos de Isabela




Há muito que Isabela desejava aquele homem. Já haviam se encontrado algumas vezes em casa de amigos e conhecidos em comum, haviam trocado algumas palavras, algumas ideias, mas nada conciso ou revelador, o mistério sempre permanecia.

Naquela manhã Isabela acordou com um forte desejo, queria aquele homem.
Trocaram algumas palavras, acendeu algumas velas e incenso, a luz foi tornada indirecta e tocaram-se.

Isabela principiou por mordiscar o lábio masculino, entrelaçou os dedos em sua nuca e sentou-se em seu colo. Sentiu a erecção masculina mas não deixou que o ego a dominasse.

Beijou-lhe com escrutínio, a procura de algo que só ela sabia o que era. O homem abraçou-lhe o corpo, abocanhou seu seio direito e sussurrou algo indizível.

Isabela já sentia seu sexo molhado, seu ponto de prazer estava ansioso por ser acariciado. Ele lambia seu pescoço, sua orelha, a palma de sua mão!

Isabela ainda ponderava se iria se entregar a aquele momento. Podia levantar-se e sair dali sem sequer olhar para trás, ignorar por completo aquelas sensações.

Ela pôs em sua boca o dedo indicador de seu macho e depois o introduziu em sua vagina, era ela quem controlava a profundidade e a força com que era tocada. Em seguida, Isabela permitiu que fosse realmente ele a penetrá-la.

O homem pôde ver a expressão de gozo na face de Isabela. Ela se contorceu de prazer, fechou os olhos e passou a língua nos lábios. Repentinamente pôs a mão no peito do homem pedindo-o que parasse. Ele obedeceu e ficou à espera que ela lhe desse alguma indicação. Isabela permaneceu com os olhos fechados mas mexeu os quadris no sentido inverso. Ela voltou a atingir o êxtase.

Ele sugou seu mamilo esquerdo, lambeu seu rosto e beijou-lhe a boca. Isabela mordeu-lhe ferozmente, gemeu mais alto e tornou seus movimentos mais rápidos e frenéticos.

Após mais um orgasmo, Isabela debruçou-se sobre ele por alguns segundos. Passados 15 minutos, já ela estava em frente ao semáforo, dentro de seu carro, a espera de que a luz verde permitisse que os carros pusessem-se em movimento.

Isabela tinha muito trabalho para fazer naquela manhã de terça-feira. Há dois minutos soube que sua paciente entrou prematuramente em trabalho de parto. Definitivamente seria um dia difícil.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Francisco, o filho




Adriana era agora uma mulher muito mais consciente de si, de suas necessidades. Aprendeu a ser-se suficiente, mas nem sempre fora assim.

Era uma pessoa regrada, nada dada a exageros ou extravagâncias. Mas apaixonou-se, e quando uma moça regrada se apaixona a mística da vida se liberta e permite que o destino flua.

Naquele encontro casual, com bocas se engolindo, mãos irriquietas, respirações ofegantes, suor, hálito, olhares entorpecidos pela libido, sussurros e orgasmos, fez-se a vida.

Cinco anos é algum tempo, com cinco anos uma criança já sabe ler, já sabe escrever, já sabe se questionar e interpelar outrem com suas inquietações, aos cinco anos nosso cérebro é genial e com cinco anos ninguém nos pode enganar.

Francisco contava cinco anos, há cinco anos que não tinha pai. Ele sabia que ele existia, mas este parecia estar muito ocupado e nunca pôde, desde seu nascimento, reservar uma parte de seu tempo para conhecê-lo. Francisco pusera essa questão a sua mãe algumas vezes e esta, naqueles momentos, contorcia o rosto com uma expressão de exasperação e medo, o que o deixava muito impressionado. À noite o menino ouvia sua mãe chorar sob a penumbra da janela e assim concluiu que falar de seu pai devia ser doloroso.

Nas férias de julho de 1995, Márcia o havia ido buscar à natação e quando chegou à casa, Francisco percebeu-a muito silenciosa. Era hora do almoço e o menino, mesmo tendo detectado o silêncio incomum, correu aos gritos para o banheiro para lavar as mãos. Márcia avisou-o de que a comida iria demorar mais algum tempo e ele pôs-se então a assistir alguma baboseira na televisão.

Entretanto, ouviu vozes vindas do quarto de sua mãe. Ela não deveria estar em casa a essa hora! Isso era estranho. Encaminhou-se curioso até lá e com uma grande ansiedade pôs a mão na maçaneta e adentrou o quarto. Viu um homem sentado na poltrona perto da janela e sua mãe na beira da cama, com uma expressão muita séria.
O tal estranho estava nervoso mas ao mesmo tempo parecia tentar se controlar a todo o custo. Tinha uma aparência muito singular. Era bonito, mais velho que sua mãe, cabelos grisalhos e dentes e olhos igualmente grandes. Francisco não teve medo daquele estranho, na verdade sentiu uma profunda alegria.

O menino respirou fundo e um segundo depois correu com todas as suas forças em direção ao homem. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e quando pulou e abraçou fortemente o pescoço de seu pai, Francisco disse que tinha certeza de que aquele momento chegaria.

Passaram a tarde toda conversando na varanda do apartamento. O menino mostrou o álbum de fotos que vinha organizando, assim ele não teria perdido os grandes momentos da sua vida. Francisco percebeu que seu pai ia chorar, seus olhos estavam avermelhados, carregados de lágrimas e seu peito parecia prender todo o ar. O menino disse que não fazia mal ele só ter aparecido naquele momento para conhecê-lo, o que importava é que ele estava ali.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Uma história do amor com final feliz




Era uma manhã de chuva, o céu acinzentado destoava do clima daquela cidade maravilhosa. Os pingos d´água molhavam a varanda da casa, os móveis de veraneio, as enormes janelas só de vidro.

Roberto estava pensativo naquela manhã chuvosa de julho, era domingo, era dia de descanso, dia de curar mais um pouco a sua osteoporose na alma. Estava embrulhado nos lençóis de seda cor de marfim, seu quarto cheirava a incenso indiano, comprado em sua última viagem.

Acordou com saudade, acordou e lembrou daquele beijo, aquele beijo, daquele beijo. Surpreendeu-se com aquele desejo, aquela saudade tão dolorosa que é sentir o sabor, o cheiro daquilo que sabemos já não mais poder ter.

Esta era a maior conquista de Paulina, e ela nunca o soube. Havia há muito ido da vida de Roberto, entretanto seu cheiro impregnara as narinas, a casa, o carro, as mãos, a boca, a mente e os lençóis deste homem.

Haviam passado muitas mulheres por aquela cama, mulheres mais sensuais, inteligentes, divertidas e fortes do que ela. Mas era Paulina quem Roberto amava, por mais difícil que fosse de se perceber este amor.

Era ela a mulher que Roberto procurava a meio da noite quando esticava o braço pela cama em busca de aconchego e proteção, era por causa dela que ele inconscientemente só se permitia dormir numa metade da cama. Foi para ela que ele comprou as violetas que ficam no centro da mesa da sala de estar.

Roberto sabia que Paulina não era a mulher mais bela do mundo, não era a mais perspicaz nem a mais elegante. Sabia que não era a mais ousada durante o sexo nem a mais madura emocionalmente mas ele a amava e para isso não encontrava explicação racional, só se conseguia lembrar do cheiro de seu perfume, do cheiro de seus cabelos quando acabados de lavar, do cheiro de seu creme de corpo e da sua pela macia, dos seus lábios naturalmente desidratados e da expressão de seu rosto durante o amor.

Neste instante lembrou-se que jamais conseguiria tê-la de volta, jamais conseguiria o seu perdão, sabia que Paulina era agora a mulher que ele jamais imaginou que ela pudesse se tornar, uma mulher amadurecida e lúcida que agora facilmente deslindaria seus defeitos e fraquezas, e isso ele não poderia suportar, por isso preferia viver de cheiros e lembranças do que de realidade e seus cruéis desafios diários.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A puta






Foi uma voz forte, com projecção, que conduziu Maria de Fátima, a puta que acompanhava aquele homem tão distinto, até a uma das melhores mesas daquele recinto.

Iriam passar a noite juntos, ele iria penetrá-la quantas vezes quisesse e da maneira que quisesse. Contudo, a puta havia estipulado o preço para isto, por isso ela não era de quem a quisesse, era somente de quem pudesse pagar o o seu valor.

Maria de Fátima era esbelta, talvez magra demais e sem muitos atrativos físicos que sugerissem que pudesse prender a atenção de um homem como ele, mas curiosamente e contra toda a probabilidade, ele havia se encantado com a dita puta.

A puta era tacanha, digo tacanha na tentativa de mostrar realmente a baixeza da tal mulher. Tinha um cabelo cacheado maltratado, uma pele suja e marcada de sinais e imperfeições, unhas mal cuidadas e dentes amarelados. Simplesmente não se conseguia perceber o quê aquele sujeito vira naquela criatura.

Era visível o ar de insatisfação em receber tal discrepante par naquele singular restaurante de Genebra. Os garçons apresentavam um semblante impávido que só podia significar forte desagrado, caso contrário, seriam risonhos como o eram com o casal da mesa ao lado. Por conseguinte, os demais clientes evitavam o olhar frontal, preferindo observar de "esguelha", como quem observa um criminoso a ser preso pela polícia depois de uma tentativa de assalto a banco.

Contudo e, para grande infortúnio dos demais, que gostariam de censurar Maria de Fátima pelo fim que esta dava ao seu corpo, ela estava muito aquém da capacidade que lhe permitiria captar esta atmosfera hostil. Era uma pessoa com um intelecto muito pouco desenvolvido, que mais se assemelhava ao de um animal, ou melhor, de uma fêmea em altura de acasalamento e que, já agora contextualizando a situação, havia encontrado o macho que lhe parecera mais indicado para "cobrí-la" e saciar suas naturais obrigações de fêmea.

Por outro lado, ele tinha plena consciência da situação. Da censura para com eles, o par discrepante, e da tamanha abstracção de sua acompanhante para com as circunstâncias. Entretanto, a única coisa que permanecia em sua mente era a sua ansiedade para descobrir o sabor do ponto húmido de sua acompanhante.

A ignorante e ignóbil mulher, sendo este o factor atrativo desta fêmea para este homem, o havia fascinado por completo. Não iria se apaixonar, para isso seriam necessários muitos outros atributos que ela jamais seria capaz de desenvolver pois tratava-se de uma criatura rasa, com a profundidade de um pires.

Aquele homem era ali, naquela mesa, naquele restaurante em Genebra, o macho que percebera uma fêmea em época de acasamento e lembrou-se das suas obrigações enquanto tal. Ele tinha esta percepção e não censurava a si próprio, aliás, isto o excitava ainda mais, e além dissso, ela o atraía fisicamente, gostava do formato dos seus seios e da maneira que punha os cotovelos sobre a mesa e lançava-lhe um olhar vazio, sem nenhuma mensagem.

Nisto ela era também intrigante, pois ele nunca antes estivera com uma mulher que não quisesse nada em troca. Havia sempre um pedido de casamento, de sexo, de amor no olhar das mulheres que havia tido.
Maria de Fátima abriu suas pernas e ele pôs dois dedos molhados de saliva em sua vagina. Ela abstraiu-se mais uma vez, dessa vez quase havia partido para outra dimensão, estava longe deste mundo. Ele penetrou-a pela primeira vez, depois uma segunda e terceira vez, penetrou-a quantas vezes quis e da maneira que lhe apeteceu. Ela era a fêmea que necessitava de seu esperma para cumprir sua obrigação natural.

Ele, mais tarde, lembrar-se-ia de que havia usado protecção contra as doenças mundanas, anulando assim o seu contributo para com a natureza. Iria também lembrar-se que, misteriosamente, a ignóbil ignorante criatura havia murmurado uma frase relevante no momento em que ele havia perdido suas forças e se debruçado por completo por cima dela. Aquela frase o irá chocar, ao constatar que se tratava de Vinícius em um de seus memoráveis sonetos.

Haveria afinal alguém dentro daquele corpo que parecia pairar e deambular sem rumo e consciência por este mundo?